UNIDADE PRATA PARTE -5- 
Copyright © Aldomon SVCA 1996.
 Caminhava pelo parque, às margens de seu lago artificial.  O dia estava frio e ventava muito.  No céu, promessas de garôa.
    Era um hábito agradável ir, de vez em quando, ao parque para meditar.  Entre um pensamento e outro, procurava avaliar a trajetória da minha vida até aquele momento.  Sentia-me feliz por tudo que fazia, porém ainda não me dava por satisfeito.
    Por meio da viagem astral, eu vivia aventuras que, muitas vezes, eram de tirar o fôlego, cujos limites pareciam não existir.  A liberdade de ação era quase total.  Neste aspecto, sentia-me plenamente realizado.
    Entretanto, minha outra vida (no mundo físico) não me parecia ir muito bem.  Apesar das palestras quase que diárias e dos constantes contatos com diversas pessoas, a cada dia eu me sentia mais e mais ocioso.
    Em minha consciência existia uma insaciável cobrança de produtividade.   Queria encontrar mais situações em que pudesse aplicar meus potenciais adormecidos.
    A meditação foi se tornando cada vez mais profunda.  Dialogava com a voz do meu Eu Superior quando, de repente, uma idéia surgiu em meio aos meus pensamentos:  eu poderia trabalhar no treinamento de equipes de viajantes astrais.  Nas palestras seriam selecionadas as pessoas nas quais pudesse identificar a possibilidade de se tornarem viajantes.
    Encontrar os voluntários não seria difícil, sendo que pessoas com um potencial aflorado costumavam comparecer às palestras.  Mas havia um problema:  eu precisaria de recursos para as despesas com as instalações, além da disponibilidade de tempo.
    Fiquei entusiasmado em poder ensinar, de maneira mais prática e objetiva, a viajar através dos mundos.  Voltei para casa com o propósito de começar a entrar em contato com prováveis patrocinadores para o meu trabalho.
    Um mês depois já havia selecionado a primeira equipe de treinamento.  Eram pessoas de diversas idades.  Notei, logo de início, que os níveis conscienciais eram bem  heterogêneos, o que viria dificultar bastante o trabalho em conjunto.
 
    A primeira equipe durou aproximadamente dois meses e seus resultados mostravam-se satisfatórios.  Contudo, pude constatar a necessidade de formar equipes de vários níveis.  Na primeira, eu havia misturado águias a pardais.  Voando em alturas e velocidades diferentes, foi um tanto angustiante para ambos os tipos levantarem vôo juntos.  Uns eram atrasados pelos outros, os quais ficavam frustrados por não poder acompanhá-los.  Aprendi mais uma importante lição:  águias não voam com pardais.
    Os treinamentos seguintes foram melhorando gradativamente seus resultados e eu conheci pessoas com as quais vivenciei experiências que nos aproximaram pelos laços de afinidade.
 
    Conheci Verônica.  Mulher de mente ágil e dinâmica, com uma aguçada inteligência.   Além de sua aparência suave e bela, o que realmente me chamou a atenção em nossos primeiros contatos foi o firme propósito de evoluir, coisa que ela já estava fazendo de maneira bastante acelerada.
    A viagem astral viera de maneira nata em sua vida, o que dava a ela muita segurança em suas aventuras interdimensionais.  Era constante destaque entre os participantes do treinamento, por sua impressionante facilidade de aprender e assimilar os conhecimentos mais complexos, das viagens a outros níveis de realidade.  Sua coragem fez com que ingressasse, em breve tempo, na Unidade Prata.
    Mesmo após o fim do treinamento da equipe da qual Verônica fazia parte, continuamos mantendo contato.
    Certo dia, em que as forças das energias cósmicas pareciam estar bem mais fortes, recebi a visita de Verônica.
    Bastante alegre, sentou-se à minha frente e narrou-me uma das várias viagens astrais que fizera:
    -  Notei que estava projetada para fora do meu corpo.  Vestia um uniforme cinza bem claro, feito de um tipo de tecido aderente à pele.  Em diversas partes deste traje havia partes metálicas prateadas.  Vi uma espécie de distintivo no peito.  De repente, escutei uma voz vinda de um pequeno comunicador que eu trazia preso ao meu cinto.  Neste instante, minha consciência mudou subitamente, como se eu houvesse me tornado outra pessoa.
    Muito atento à história de Verônica, pedi que continuasse.
    -  Atendi o chamado, no qual alguém informava que uma nave viria me apanhar para partirmos em missão.  Depois de algum tempo, fui teleportada e me vi a bordo de uma nave, onde encontrei uma outra mulher trajando o mesmo uniforme, até parecia-se um pouco comigo.  Através da janela, percebi que velozmente sobrevoávamos cidades, atravessando também o oceano em questão de segundos.  Passando sobre um deserto, avistei um complexo de construções gigantescas.  Pousamos a certa distância do local.  Ao desembarcarmos, pudemos observar no céu uma frota de pequenas naves triangulares, tais como aquela em que eu estava.
 
    -  As naves pousaram próximas a nós e de lá desceram homens e mulheres, vestidos em uniformes de três modelos distintos:  uns eram macacões brancos, outros eram armaduras prateadas e os restantes eram iguais ao meu.   O comandante da equipe nos reuniu a todos, a fim de passar as instruções.  Iríamos nos infiltrar em uma base de extraterrestres negativos, espalhando bombas em pontos-chave, cuja detonação simultânea destruiria todas da instalações.  Tratava-se de uma fábrica de armamentos, naves e andróides utilizados em guerras contra as forças da luz.  Seria uma importante vitória a destruição daquela base.  As instruções chegaram ao fim.
    Verônica prosseguiu:
    -  Das naves foram saindo aparelhos que se assemelhavam a motos magnéticas.  A maior parte das motos saiu em direção à base-alvo.  Eu estava em uma delas e, ao nos aproximarmos do perímetro de segurança do alvo, descemos das motos e nos camuflamos como trabalhadores da base.  Já infiltrados e devidamente espalhados, instalamos as bombas uma a uma.   Lembro-me de que, quando começaram as explosões, eu ainda estava lá dentro.  Foi quando entrei em contato com as naves que sobrevoavam o céu e fui imediatamente teleportada, aparecendo a salvo no interior de uma delas.
    Concluído o relato de Verônica, falei:
    -  Bem-vinda ao time!  Você é uma guerreira dos mundos astrais!
    Conversamos mais um pouco, despedindo-nos em seguida.
 
    Ao longo do tempo, foram surgindo diversas pessoas em minha vida que, logo nos primeiros contatos, eu identificava como integrantes dos comandos.  Entretanto, raras vezes eu lhes relatava tal fato.  Preferia que descobrissem por si mesmas as suas origens, a fim de não se sentirem dependentes de alguém que lhes mostrasse o caminho.  Esta é uma tarefa que cabe a cada pessoa, seja ela quem for.
    Após um ano e meio de treinamento de equipes, sentia-me exausto deste tipo de trabalho que, apesar de possibilitar-me conhecer pessoas muito interessantes ou poder ajudar outras que precisavam de alguma orientação, ainda não me sentia contente.
    Ressurgiu em minha mente um antigo questionamento:  "Qual será realmente a minha missão aqui neste mundo?"
    Tal interrogação atingia o âmago do meu ser.  Queria, por tudo, encontrar a grande resposta, pois minha vida na Terra dependeria dela.
 
    Os dias de hiper-atividade foram gradualmente se perdendo no passado.  As palestras tornavam-se cada vez mais raras e os treinamentos estavam parados.  Paulatinamente fui vestindo uma máscara de cidadão comum.  Esta foi a maneira de sair em busca da missão, meta que transformara-se em minha razão de viver.
    Todavia, novos fatos surgiram e o tempo inevitavelmente colocou-me diante de difíceis encruzilhadas.  Não estava me adaptando ao modo de vida da Terra, principalmente no que se referia a valores existenciais.
    As pessoas que comigo conviviam cobravam-me, de certa forma, que eu tivesse um comportamento-padrão, similar ao da maioria.  Diante do mundo, eu me mostrava um rebelde aos costumes tradicionais.  Porém, havia atingido uma idade que me impunha seguir ou não o secular ritual da humanidade da Terra, cujos princípios básicos eram:  nascer, crescer, estudar, escolher uma profissão e preparar-se para o casamento, o que poderia dar origem a uma nova família.
    Eu vivia um exaustivo dilema.  Não sabia se realmente queria levar adiante os meus estudos para que pudesse escolher alguma especialidade acadêmica.  Isso tornava-se cada vez mais um motivo de intermináveis indecisões.  Pensava comigo mesmo:  "Não posso decidir em quê vou trabalhar enquanto não descobrir qual é a minha missão aqui no mundo físico."
 
 
    No Mudo astral, uma esquadrilha de pequenas naves cortava velozmente o céu, em formação triangular.  Eram vinte caças de cor prata-espelhada.  O dia estava lindo, seu brilho resplandecente enchia ainda mais de vida o horizonte azul-celeste.
    Saímos da atmosfera rumo à nave de Ashtar.  Eu pilotava um dos caças.  Como de costume, adentramos uma das milhares de rampas de pouso da nave-mãe.  Assim que todos desembarcaram, informei-lhes nosso horário para regressar.  Separamo-nos em seguida, pois estávamos ali a fim de cumprirmos diferentes funções.
    Teleportei-me para a ponte de controle, em busca de Ashtar.  Surgi no centro do controle, cuja predominância de cor era branco-neve.  Naquele imenso espaço havia inúmeros aparelhos, quase a perder de vista.
    Ashtar, percebendo minha presença, veio ao meu encontro com expressão de alegria.  Seu corpo estava com outra forma.  Sua constituição física assemelhava-o aos homens da Terra.  Seu cabelo castanho-claro, bastante liso, estendia-se até um pouco abaixo dos ombros.  Olhos azuis extremamente expressivos e claros, dando-lhe um aspecto jovial.  Aparentava ter uns trinta anos.  Sua voz soou convidativa:
    -  Aldomon, tenho um amigo que pediu-me um favor.  Ele também é Comandante de uma frota de Cruzadores.  Uma de suas Unidades será enviada, em missão,  a Universos que eles desconhecem.  Também precisarão usar uma tecnologia com a qual não estão familiarizados.  Sei que a Unidade Prata conhece tais Universos e domina o uso da tecnologia necessária.  Por isso, prometi ao Comandante Toraque a realização do treinamento de uma de suas Unidades.  Posso contar com sua ajuda para isso?
    Percebendo que Ashtar esperava de mim uma resposta objetiva, falei:
    -  Estamos à sua disposição, meu caro Comandante.  Podemos começar o treinamento assim que desejar.
    Ele, então, continuou:
    -  A Unidade que precisa ser treinada chama-se Canéra, cuja Comandante é Iara.  Uma observação:  todos os mil integrantes são mulheres.
    Perguntei quando elas chegariam para o início do treinamento.  Ashtar, animado com minha vontade de começar logo o trabalho, respondeu:
 
    -  Daqui a um dia da Terra o Cruzador de Iara colorirá a atmosfera.
    Pensei: "Ashtar parece conhecê-la..."    Ele leu meu pensamento e disse:
    -  Sim, eu a conheço.  Há alguns séculos, passei por seu planeta e tive a oportunidade de, casualmente, encontrar-me com a Unidade Canéra e assim conhecer Iara.  Conversamos por algum tempo e uma das coisas que ela me falou é que já havia ouvido falar muito a respeito da Unidade Prata, que servia sob meu Comando.  Pelo que pude perceber, ela parecia ter forte interesse em conhecê-lo.
    Ashtar colocou-me a par de todos os dados sobre a Unidade Canéra e informou que, assim que Iara chegasse, seria enviada ao Cruzador Triton,  para que tratasse comigo dos planos do treinamento.
    Despedi-me de Ashtar e, sem demora, regressei à rampa de pouso e decolagem, onde alguns pilotos da esquadrilha já estavam à minha espera.  Através do comunicador, chamei os pilotos que faltavam e, em poucos segundos, estávamos todos subindo a bordo.
    Novamente a esquadrilha transpôs o espaço em formação triangular.  Por entre os pontos luminosos surgiu o Cruzador Triton, aquela imensidão de metal prateado que, por muitas vezes,  parecia ser um espelho cósmico onde as estrelas refletiam entre si o brilho da vida.
    Como pássaros voltando ao ninho, penetramos aquela intransponível fortaleza voadora.  Descemos dos caças com a alegria costumeira de estarmos de novo em nossa casa.  Os pilotos conversavam entre si coisas cotidianas na vida de guerreiros dos mundos.  Andando com certa pressa, passei em volta do aglomerado de pilotos.
    Depois de trocar meu traje, teleportei-me ao centro de controle.  Sion estava dando algumas instruções aos operadores de máquina, mas logo veio perguntar se eu havia me encontrado com Ashtar:
    -  Novidades, Aldomon?
    -  Sim, tenho!  E boas!
    Percebi que todos que estavam na ponte de controle aguçaram seus ouvidos.
    -  Ajudaremos uma Unidade a aperfeiçoar-se no uso de determinados equipamentos tecnológicos, bem como dar-lhes conhecimento das leis de certos Universos.
    Desta vez mais interessado pela novidade, Sion perguntou:
    - Quando começaremos o treinamento?  Estou ansioso por mais ação!
    Pensei no que Sion falou:  Ação!  Aqui é o que mais temos.  Todos os dias e noites são repletos de batalhas.  Mas reconheço que nossa Unidade parece não se saciar de trabalho.  Expliquei:
 
    -  Amanhã o Cruzador da Unidade Canéra chega ao planeta e, após conversar com sua Comandante, saberei quando iniciaremos.
 
    Acordei no mundo físico, guardando em minha memória todos os detalhes do que fizera no outro mundo.  Senti uma agradável sensação de ser imortal.  Achava que não suportaria viver neste mundo tão limitado se não tivesse a capacidade de sair do corpo.
    O dia passou num abrir e fechar de olhos, até que chegou a hora de repousar entre os lençóis.
    Assim que deitei, não estava com sono suficiente para dormir.  Minha cabeça começou a fervilhar, repleta de pensamentos que me empurraram para dentro de uma estonteante euforia.  A vida colocava-me, noite após noite, envolvido a fascinantes aventuras.
    O sono veio sem avisar e levou-me em seus braços para fora do corpo.  Quando percebi, já estava no mundo astral.
    Inclinando a cabeça, verifiquei se estava trajado com o uniforme da Unidade.  Sem perda de tempo, chamei uma nave através da telepatia.  Flutuei para o alto do prédio em que morava e logo pude avistar a pequena nave, a qual encontrava-se estacionada em pleno ar, à minha espera.  Voei até uma de suas portas e, assim que entrei no aparelho, deparei-me com duas confortáveis poltronas.
    Sentado em uma delas, coloquei rapidamente meu capacete e segurei com firmeza o mancho de controle, o qual estava acoplado ao painel à minha frente.  Um pouco acima do painel, duas telas visuais orientariam meu vôo.
    A habilidade de pilotar surgiu em minha mente.  Apertei um botão e puxei levemente o mancho para cima, fazendo com que a nave decolasse suavemente.
    Em uma das telas gráficas vi um desenho do Cruzador e, na outra, um do pequeno aparelho em que eu estava.  Sem dificuldades,  apenas segui o roteiro gráfico do monitor, como se eu estivesse em um video-game.   Vez ou outra eu olhava através das janelas e observava os continentes se tornando pequenos, lá embaixo.  Em breves momentos só era possível identificar, atrás de mim, a esfera azul do planeta Terra.
    Uma sensação de liberdade intensificava-se mais e mais, até que minha atenção voltou-se para o Cruzador.
 
    Apesar deste ainda estar a certa distância, fiz a aproximação e, através do comunicador visual, efetuei o contato:
    -  Solron, aqui é Aldomon.  Estou fazendo a manobra de entrada na Rampa 2.
    -  Afirmativo.  Rampa 2 liberada para acesso.
    Com destreza e precisão conduzi a espaçonave através do corredor da rampa de pouso e decolagem.  Empurrei suavemente o mancho para baixo e pousei.
    Até que não era difícil pilotar estando eu com a identidade de Aldomon.  Eu havia pilotado sem ter me transformado plenamente em Alderan.
    Retirei o capacete e soltei o cinto de segurança.  Destravei a porta, empurrando-a para cima.  Andando pelo chão metálico, subi alguns degraus e comecei a percorrer os alojamentos dos integrantes da Unidade.  Eles se mostravam como uma grande família, cujos motivos da união foram a mútua afinidade do ideal de vida.  O Cruzador era um lar que trazia em si um pedaço de lembranças dos mundos em que havíamos vivido.  Todos os integrantes da Unidade Prata amavam de corpo e alma os seus trabalhos, sendo capazes de qualquer sacrifício para cumprir a missão que lhes fosse apresentada.
    Isto, para mim, era motivo de infinito contentamento.  Sempre que possível, compartilhava com eles alguns momentos de companheirismo.
    Os extraterrestres que assumiram corpo astral da Terra, ou até mesmo aqueles que nasceram no mundo físico, periodicamente precisavam se alimentar de cotas de energia moduladoras de vibração.  Sem tais energias, em breve tempo o corpo astral seria desintegrado, fazendo com que a pessoa voltasse a seu corpo anterior.
 
    Ao passar pelo alojamento, entrei em um refeitório energético.  O lugar apresentava, em seus móveis e paredes, suaves tons de azul-metálico, porém o branco era predominante.  Balcões compridos, cujos assentos eram ocupados por diversas equipes, contrastando entre si por seus uniformes de diferentes modelos e cores.  Em um outro ambiente, um pouco adiante do balcão, havia mesas compridas, também cercadas de assentos que, naquele momento, estavam quase todos vazios.
    Avistei Sion em uma das mesas.  Aproximei-me, puxando uma cadeira.  A conversa começou com uma lembrança minha de um acontecimento passado:
    -  Hoje chega a Unidade que treinaremos.  Ontem não te disse, mas fiquei sabendo que esta Unidade é composta apenas por mulheres e, que na maioria, são oriundas do mesmo planeta.
 
    Prossegui:
    -  Ainda não faço idéia de qual seja a especialidade das integrantes de Canéra.
    Sion olhou-me confiante e expôs seu pensamento:
    -  Sejam quais forem as habilidades da Unidade Canéra, elas foram suficientes para convencer Ashtar de que conseguiriam passar por nosso treinamento.  A propósito:  está próxima a hora de sua chegada?
    -  A qualquer momento!  E nós é que iremos recebê-la!  - respondi ansioso.
 Sion  e eu  teleportamo-nos para o centro de controle. Calia  alertou que um cruzador foi detectado em nossos sensores,  o qual, ao ser  contatado, se identificou  com o nome  de Irques, tripulado pela Unidade Canéra, cuja  comandante é Iara.  Imediatamente informei que o cruzador desconhecido já estava sendo aguardado. Passou um breve  espaço de tempo, de repente  recebemos a comunicação de  que Iara  havia chegado ao setor do planeta  Terra.
 Rapidamente entrei em contato com a unidade Canéra:
 - Aqui é  Alderan, comandante do Cruzador  Triton, solicito a presença da comandante Iara em Triton o mais breve possível.
 A imagem feminina que coloria a tela visual verbalizou algumas palavras:
 - Comunicarei imediatamente a  Iara!
 Avistei, através de uma janela, a nave, de gigantesca proporção. O Cruzador Irques também seguia a  engenharia geométrica - esta peculiaridade arrancou de mim uma singular admiração. Achei um tanto quanto diferente as cores que eram apresentadas em várias partes do cruzador, eram variadas, muito vivas, fluorescentes, havia partes vermelhas, azuis, verdes, amarelas,  pareciam com as cores  do arco-íris.
 Fui informado de que Iara se teleportaria para o nosso cruzador, para nos  encontrar. Com certa pressa trajei a armadura de gala, e pus-me a esperar.
 
 De repente surgiram diante de mim dez lindas mulheres,  mas  uma delas atingiu profundamente o âmago do meu ser.  Foi amor à primeira vista. Assim que fitei seus olhos pretos brilhantes, meu interior estremeceu, fiquei fascinado com sua encantadora beleza, que era celestial e ao mesmo tempo terrena. Fui  envolvido por sua expressão meiga, mas que também transmitia energia.
 Todas trajavam a mesma roupagem: um tipo de macacão inteiriço, de tecido que  se  assemelhava a lycra. Ao longo do traje havia divisões  de várias cores que eram similares às  de seu cruzador.
 Seu cabelo, comprido até a cintura,  tinha cor de noite sem luar, em seu rosto uma franja milimetricamente acima de suas sobrancelhas, seu rosto de pele  clara, estava discretamente rosado. Os traços dos olhos,  do nariz como também  os da boca eram inacreditavelmente perfeitos.  Aquela mulher parecia ter sido criada nas medidas exatas  para meus parâmetros..  Seu corpo era esbelto,  todas as suas partes eram bem definidas em suave  aparência.
 Seu rosto esboçou um sorriso,  que foi mais e mais tornando-se expressivo,  os olhos abriram um pouco mais, dando uma impressão de intimidade e ao mesmo tempo de  contentamento. Eu também sorri, então percebi que ela transmitia reciprocidade de sentimentos, fui banhado por  seu amor. Escutei sua voz o  que me encantou ainda mais:
 Creio que você seja Alderan  ! Estou certa?
 - Absolutamente  certa! E você, Iara"!  "- Falei-lhe com ternura e carinho.
 Ela confirmou com um olhar de cumplicidade. Fitei suas companheiras de equipe e falei descontraidamente:
 - Podem ficar à vontade,  todas vocês são bem-vindas !
 Senti que tanto a sua equipe quanto a minha ficaram  surpresas ao perceberem que um clima especial aconteceu entre nós. Pedi a todas que me seguissem,  para mostrar-lhes os vários setores do Cruzador,  que internamente se parecia com uma pequena cidade eletrônica.
 Teleportamo-nos para um dos laboratórios de desenvolvimento tecnológico, onde mostrei a Iara os métodos que eram empregados para transcendermos cada vez mais a eficiência dos equipamentos.  Apresentei alguns de nossos recursos,  para que pudessem se situar sobre  quais seriam os aspectos de manuseio que necessitavam aprender.
 Convidei Iara para um passeio ao planeta Terra e ela aceitou sem hesitação. Fomos para uma rampa de decolagem e subimos a bordo de uma pequena espaçonave.      Comuniquei ao controle do cruzador  que estava partindo para a Terra. A rampa foi aberta e por ela saí rapidamente, tomando a direção da esfera azul que girava a certa distância.
 Enquanto eu pilotava, conversava com Iara, e uma das coisas que lhe perguntei foi se já conhecia o planeta que estava prestes a visitar. Ela respondeu-me:
 - A alguns milênios atrás, vim aqui como cientista de engenharia genética. A equipe que eu integrava interferiria na genética física dos seres humanos primitivos que povoavam a superfície mas, pelo que posso notar de onde estamos, o planeta mudou bastante,  os continentes estão diferentes.
 Prontamente expliquei:
 - Aconteceu uma alteração no eixo de rotação, isto fez uma profunda mudança geográfica.
 Iara transmitia tanta alegria e companheirismo que sua companhia agradava-me cada vez mais, sentia nela um complemento harmonioso, sua mente e seu corpo tinham  beleza suficiente para saciar meus parâmetros perfeccionistas.  Sua voz transmitia em cada palavra um composto alquímico que me envolvia em um êxtase arrebatador, mas  em minha consciência um pensamento de alerta tentava avisar-me: eu e aquela mulher pertencíamos a mundos diferentes. E também, no que se referia a nosso  contato, sabia que, assim que sua Unidade terminasse o treinamento,  partiriam para um universo tão distante que  até mesmo nossos pensamentos teriam que se afastar. Mas já era tarde para tentar escapar do amor que sentia por ela, eu mesmo enredara-me naquele sentimento do qual não conseguia mais desvencilhar. O silêncio da minha profunda introspeção foi suavemente interrompido pela voz afável de Iara a perguntar-me:
 - Alderan, por que de repente você pareceu ficar triste?
 - Estava pensando em até que preço estou disposto a pagar pelo amor incerto!  -Respondi resignado.
 Parecendo conhecer o meu íntimo, ela falou com ar convidativo:
 - Este amor pode  não ser tão incerto e fugaz quanto parece ser!
 O aparelho já sobrevoava a superfície da Terra, virei meu olhar em direção ao da minha companheira de vôo, e dando um sorriso misterioso falei:
 - Quero levá-la a alguns lugares que para mim são muito especiais.
 Primeiramente iríamos a um recanto situado em uma exuberante floresta.
 Estávamos passando por cima da América do Norte, rapidamente passou   por nós a Central e por fim sobrevoamos o Brasil. Avistei uma imensa floresta, em breve tempo comecei a pousar às margens  de uma pequena cachoeira, e a nave tocou o solo de uma clareira de pedrinhas polidas, peculiar aos leitos de rios de águas cristalinas. O sol tinha acabado de nascer naquela floresta tropical, árvores altas e esguias formavam  uma ampla cúpula de folhas, que deixavam escapar por entre as frestas feixes de luz que se transformavam em raios brancos ao serem envolvidos pelo vapor que estava sendo exalado do chão, como também das plantas. Nós desembarcamos, ela correu seus olhos em várias direções da floresta, e espontaneamente falou com ar de contentamento:
 - Este lugar parece encantado. Como a natureza deste planeta é  bela!
 Convidei-a a me seguir por  uma estreita trilha feita em degraus de terra, demos uns seis passos e pedi-lhe que  parasse. Iara obedeceu prontamente, mesmo sem saber do que se tratava. Mentalmente eu pensei em uma palavra que servia de senha. Ao pronunciá-la em minha cabeça, foi como se tivesse retirado uma barreira invisível do nosso caminho, eis que surge diante de nós um pedaço do paraíso, uma casa de tijolos brancos reluzentes:  estava cercada por um colorido jardim de flores  que se estendia em volta da trilha em que estávamos.
 Caminhamos por entre o jardim até chegarmos à frente da fachada da casa: janelões de vidro transparente davam ao interior daquela casa silvestre uma intensa claridade que realçava ainda mais o ar de vida no ambiente.
 
 Virei a maçaneta e abri a porta transparente. Com um gesto convidei Iara  a  entrar primeiro. Ela sorriu e, em seguida, entrou.  A sala de estar como também todos os cômodos tinham em sua decoração dois estilos bem distintos : um era rústico-campestre e outro mostrava a sofisticação  de uma moderna tecnologia.  Após mostrar-lhe todas  as partes da construção, sentamo-nos em um confortável sofá e, curvando nossos corpos um na direção do outro, começamos a conversar. Pedi-lhe que me falasse sobre sua Unidade. Com felicidade, uma narração saiu de seus lábios:
 - Estou no comando de Canéra há mil anos,  e nos especializamos em uma gama de atividades, tais como: efetuar a comunicação com mundos de diferentes universos, ajudar habitantes de certos planetas  a evoluir nos aspectos biológicos, materiais e culturais. Também já lidamos com povoação de espécies vegetais e animais em planetas que necessitavam de tais interferências para evoluir mais rápido. No tempo atual, minha Unidade recebeu uma missão, na qual teremos que entrar em universos bastante hostis. Para tal atuação precisaremos estudar a fundo as leis que regem  os mundos de cada universo em  que teremos de entrar. Por meio do meu comandante, pude ter acesso a você.  Bem antes que eu assumisse o comando da minha Unidade, já tinha ouvido falar muito de seu trabalho e de sua equipe  de  guerreiros dos universos. As missões de vocês são sempre tão difíceis  que eu chegava a me encabular com o fato de conseguirem cumpri-las. Já faz tempo que saí à sua procura, mas sua Unidade parecia jamais fixar-se por um  tempo que nos possibilitasse alcançá-los em nossos períodos de recesso entre uma missão e outra.
 Iara narrava algumas missões que a Unidade Prata tivera no passado. Ela havia tido acesso a informações  ultra-secretas, mas sem mistério explicou-me  que as tinha recebido de seu comandante, Toraque, num relatório onde constava uma série de ações realizadas por várias equipes da Unidade Prata. Havia sido o próprio Ashtar que o entregara a Toraque. Eu é que fiquei bastante encabulado, pois Iara me tinha em tão alto apreço que eu não me sentia merecedor do patamar em que ela havia me colocado.
 - Talvez você fique um tanto quanto decepcionada, pois no momento atual estou cumprindo um difícil trabalho: vim para este planeta com duas missões, uma no mundo astral e outra no mundo físico. Em função disso tive que nascer  em um corpo da Terra. Já dá para imaginar o quanto estou limitado por ter sido ligado a um escafandro de carne e ossos. Não que eu esteja maldizendo o meu corpo material.
 Vez ou outra ela dava um sorriso e transmitia em seu olhar a segurança de já estar a par da minha situação. Senti-me um bobo de estar falando o óbvio.
 Novamente escutei a voz amiga e envolvente de Iara:
 - De maneira  alguma estou decepcionada com a situação em que você se encontra, ainda mais que fui informada  a respeito da importância da missão que você realizará no mundo físico. Isto me  fascina ainda mais.
 Pensei comigo mesmo: "- Ela já sabe o que vim fazer no mundo físico quando nem mesmo eu imagino o que seja."
 - Comunicaram-lhe também o motivo pelo qual eu ainda não fui informado de qual é minha missão? -Perguntei curioso.
 Iara mudou de posição no sofá, parecia buscar a resposta mais  adequada. Ela ficou em silêncio  por um breve tempo,  e por  fim:
 - Só o que posso  lhe dizer é que, ao sair em busca da grande resposta, sem perceber terá iniciado a sua missão, e então será inevitável a descoberta do seu destino.
 As palavras que ouvi naquele instante encheram minha vida de esperança. Já estava mais que satisfeito, sutilmente fui mudando  de assunto.
 - O que poderemos fazer por sua  Unidade? -Perguntei voluntarioso.
 - Precisamos de informações e também de treinamento bélico.
 Ao escutar suas palavras fiquei um pouco intrigado, e pensei: "- Será que Canéra se tornara uma Unidade guerreira?"
 Ela percebeu minha estranheza, e sem demora  explicou-me:
 - Para que possamos realizar nossa próxima missão, precisaremos formar uma  equipe bélica para fazer a proteção das demais. Com isto não correremos o risco de ser dizimados, por habitantes de planetas cujo comportamento predominante ainda é a agressividade. Nós concluímos os planos de treinamento de Canéra.
CONTINUA... 

 PARTE -6- 

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