UNIDADE PRATA PARTE -7-  |
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© Aldomon SVCA 1996.
- Já no Cruzador, eu recolhera-me a meus aposentos.
Várias salas compunham meu complexo particular.
Em uma ampla sala repleta de telas visuais, teclados, luzes e
uma série de outros aparelhos, eu estava sentado em uma
cadeira que, de tempos em tempos, circulava em várias
direções no ambiente, levando-me até os
aparelhos que eu desejava.
Naquele momento eu estava iniciando a programação
de um tipo de andróide muito especial que eu havia inventado
em minha missão anterior. Com o nome Cinertron, foi criado
em um mundo de ciber-universo, também conhecido como universo
eletrônico. Em comparação com os andróides
mais avançados, Cinertron destacava-se em vários
aspectos, mas um evidenciava-se com maior força: ele podia
modificar a sua composição molecular, transformando-se
em qualquer elemento que tivesse sido programado no computador
cibernético.
- Isto faz com que ele possa tomar qualquer forma que
deseje. Por ser energicamente alimentado à distância
pelo computador da nave, passa a ser praticamente inesgotável.
Cinertron pode fundir-se com o corpo astral, transformando-o
momentaneamente em andróide, contanto que este período
não passe de poucas horas, pois o nível de energia
é tão extremamente alto que pode provocar sobrecarga
do implante, o que acarretaria o imediato desligamento do andróide.
Fui subitamente envolvido por uma forte saudade de Iara.
Apertei alguns botões e seu rosto alegre surgiu em uma
projeção holográfica diante dos meus olhos.
- Alderan, estou esperando há um bom tempo por
sua ligação. Pensei que tinha esquecido do encontro
que marcamos ! - Falou Iara com um suave sorriso no olhar.
- - Realmente estou bastante atrasado. Contudo, por
motivos não-intencionais. - Expliquei com naturalidade.
- Num suspiro seu semblante tornou-se um pouco mais
sério. Ela, então, exprimiu-se com segurança,
como se estivesse lendo meus pensamentos:
- - Mais uma batalha, não é?
- Inclinei minha cabeça confirmado suas palavras.
Por um breve instante pensei comigo mesmo: "- Se Iara fosse
uma mulher da esfera terrestre, poderia até achar que
seu interesse em saber onde eu estava tivesse como motivo uma
ponta de ciúme. Mas, para seu nível evolutivo,
seria praticamente impossível que sentisse tal emoção,
ainda mais por ela estar ligada a seu corpo extraterrestre. O
interesse mostrado por ela em saber o meu paradeiro nada mais
era do que uma insaciável curiosidade a respeito das atividades
da Unidade Prata. Iara sabia que, com nossa crescente intimidade,
teria acesso a um profundo aprendizado nas áreas em que
eu estava efetivamente atuando."
- Novamente ela leu meus pensamentos e os achou engraçados
pela comparação que fiz com a mulher terrestre,
tanto que de seu olhar suave escapuliram alguns agradáveis
sorrisos. Não tive dúvida: aqueles gestos que brilharam
em sua face delatavam uma peculiar afinidade com minha natureza
particular, que geralmente se mostrava tão cheia de mistérios,
pelo fato de há milênios eu viver na condição
de viajante interdimensional. Fitei-a com ar matreiro e falei,
também com bom humor :
- - Assim não vale! Você lê os meus
pensamentos a todo momento! Como poderei ter segredos deste jeito?
- Rimos por alguns instantes, carregados pela alegria.
Enfim fomos à realização do que havíamos
planejado: ainda naquela noite, iríamos ao local da base
terrestre onde seria executada parte do treinamento da Unidade
Canéra. Entretanto, em nossa visita, faríamos apenas
uma vistoria das instalações para talvez percebermos
a necessidade de alguma alteração, visando o máximo
de eficiência no funcionamento dos equipamentos que seriam
empregados, principalmente nas simulações bélicas.
-
- Iara teleportou-se surgindo instantaneamente a meu
lado. Ela estava acompanhada de mais oito mulheres, que por sinal
pareciam-se muitíssimo. Porém a freqüência
de suas vibrações individuais, como se digitais
fossem, davam-lhes diferenças consideráveis no
tocante a suas identidades pessoais, tornando-as inconfundíveis
entre si para aqueles que saibam discernir vibrações.
- Aparecemos a bordo de uma pequena nave do Cruzador,
que nos levaria à base terrestre chamada Boreal do Sul,
situada na sexta dimensão do universo astral. Diversas
telas gráficas compunham o painel à nossa frente.
Todos nós estávamos bem amarrados pelos cintos
de segurança, que de forma alguma nos deixariam escapulir
acidentalmente das confortáveis poltronas que, se vistas
de um ângulo geral, mostravam ser de uma formação
semicircular.
- Taxiei o aparelho pelo amplo hangar que, no momento,
estava abarrotado por centenas de naves. Flutuamos até
uma das rampas de decolagem. Após registrar minha saída,
parti velozmente pelo espaço. Viajar em aparelhos supervelozes
tornava-se um hábito natural, mesmo estando eu com a identidade
predominante de Aldomon, visto que para Alderan o uso das mais
avançadas tecnologias não lhe parecia complexo
ou mirabolante. Estas duas personalidades faziam parte de mim.
- Enquanto pilotava atento aos controles, mergulhei
por um breve tempo num silêncio reflexivo. Em minha tela
mental foram surgindo as lembranças do início do
contato que tive com minha personalidade mais evoluída.
Não foi fácil harmonizá-la dentro de mim.
Naquela época, tive uma singular sensação.
No momento em que vi a Unidade Prata reunida na nave de Ashtar,
foi despertada em mim, como que numa explosão, a memória
imortal.
- Logo depois que isto aconteceu, não conseguia
compreender muito o ocorrido. Porém, com o passar do tempo,
tive constantes fusões das duas identidades, que momentaneamente
formavam uma só. Com isto decifrei a resposta: Aldomon
nada mais era do que um esboço que fora mal traçado
por Alderan que, não tendo material melhor às mãos,
manifestou-se por meio de um corpo de carne e ossos, o qual sem
dúvida não suportaria, em seu primitivo cérebro,
mais do que uma ínfima fração da energia
consciencial contida na mente de Alderan.
- Escutei uma voz que tirou-me bruscamente das lembranças
de outrora. Virei meu rosto para a direita, num reflexo de susto,
pela mudança tão inesperada. Percebi que a voz
telepática vinha de Iara, que interrompera minha abstração
com uma pergunta, tendo que novamente repeti-la:
- - Aldomon , você está sentindo alguma
coisa?
- - Não é nada demais, só estava
pensando no motivo pelo qual sou chamado por um nome diferente
de acordo com o estado mental em que me encontro.
-
- Avistamos Boreal do Sul, plantada no centro de um
imenso vale cercado por paredões de montanhas rochosas
de um lado, e do outro por colinas cor de esmeralda, compostas
por uma bela flora de frondosas árvores que quase arranhavam
as nuvens de tão altas.
- Notei à minha volta os olhares jubilosos das
companheiras de Iara, que pareciam encantadas com a aprazível
paisagem do lugar que faria parte do treinamento.
- Sobrevoei o amplo prédio, que tinha apenas
dois andares, mas que se estendia por milhares de metros, formando
um imenso retângulo. Em seu teto estavam espalhadas estrategicamente
várias baterias de canhões anti-aéreos pois,
apesar de a sexta dimensão ser relativamente segura, eventualmente
a base recebia ataques frustrados de exércitos negativos,
que em sua maioria acabavam aprisionados e transmigrados para
fora do planeta.
- Pousei em um pátio ao lado de outras naves.
Ao desembarcarmos, fomos recepcionados pelo diretor de Boreal,
que já há algum tempo aguardava nossa chegada.
- - Sejam todos bem-vindos ao campo de treinamentos
Boreal do Sul. - Disse Oquer, nosso anfitrião, que trazia
um largo sorriso no semblante.
- Em minha identidade de Alderan eu já o conhecia.
No entanto, fiquei surpreso com a perfeita semelhança
dele com um personagem de histórias chamado He-man. Numa
fração de segundos questionei a mim mesmo sobre
a hipótese de que grande parte das histórias criadas,
tão originalmente por escritores de renome, nada mais
eram do que ótimas idéias captadas de outros mundos
através do inconsciente, e adaptadas pela criatividade
e inteligência desses talentosos artesãos das palavras.
Oquer fitou-me por algum tempo e depois falou, em tom de brincadeira:
- - Quem está aí dentro agora ? É
o Aldomon ou o Alderan? Ah, já sei! Com certeza não
é o Alderan; ele não tem muito senso de humor com
minhas piadas. Deve ser por causa das preocupações
advindas do peso das responsabilidades que ele carrega nos ombros.
- Após as apresentações, fomos
conduzidos para o interior da base. Entramos no núcleo
das instalações. Corri meus olhos à nossa
volta e avistei, nos limites do amplo pátio em que estávamos,
vários corredores repletos de portas. Eles eram tão
compridos que se perdiam de vista os seus finais.
- Oquer, percebendo meu olhar intrigado de questionamento
a respeito daquelas tantas portas, explicou-me com naturalidade:
- Canéra utilizará apenas parte do nosso
complexo, haja vista a sua extensão, e também pelo
fato de várias Unidades estarem realizando seus treinamentos
aqui.
De um dos corredores surgiu uma jovem mulher, que flutuava
velozmente um pouco acima do chão. Ela aproximou-se discretamente
de Oquer e passou-lhe uma mensagem telepática, a qual
não tive a ousadia de interceptar.
Nosso anfitrião fitou-nos por breves instantes,
dando a impressão de estar tomando uma decisão,
e então dirigiu-se a nós:
- Lamento não poder acompanhá-los até
suas instalações, pois uma providência urgente
necessita da minha ação imediata.
Tendo dito estas palavras, teleportou-se instantaneamente.
Sua mensageira dirigiu-se a nós com explicações:
- O perímetro de segurança da base está
sendo violado por uma pequena esquadrilha de naves inimigas,
e neste caso é Oquer quem lidera o sistema de defesa.
Em seu semblante um olhar de segurança denotava
que tal fato não merecia nossa preocupação.
A mulher de pele clara e longos cabelos castanhos brilhantes
veio em minha direção, ainda flutuando, e com suavidade
expressou-se:
- Aldomon, você pode mostrar para Iara e sua equipe
as instalações destinadas ao treinamento?
Assenti com a cabeça. Feito isto, a jovem mensageira,
rápida como um beija-flor, saiu por uma abertura no teto,
deixando-nos a sós.
- Enquanto andávamos por um corredor, elevei
minha vibração, entrando em sintonia com a consciência
do meu corpo extraterrestre. Em poucos momentos tomei a identidade
de Alderan. Com isto vieram à minha memória todas
as informações a respeito de Boreal e suas respectivas
instalações.
Subitamente comecei a sentir algo. Era como se a visão
fosse escurecendo, a audição desaparecendo; não
conseguia mais me comunicar telepaticamente nem verbalmente.
De súbito o chão pareceu sumir debaixo dos meus
pés e eu caí num buraco escuro que parecia não
ter fundo.
- Olhava para cima - de lá vinha uma forte luz
- e minha visão tornou-se clara, apesar de ainda continuar
caindo. Vi lá no alto o corredor branco e luminoso em
que Iara e sua equipe continuavam andando ao meu lado. Sim, eu
ainda continuava lá, porém vestido em outro corpo
astral, bem mais sutil e evoluído, no qual se manifestava
a minha parte Alderan.
- Um vento gélido que se sente em queda banhava
meu corpo. Como um pára-quedista sem pára-quedas,
eu me desesperei ( não com medo de chocar-me com um possível
chão, mas sim com receio de ficar fora daquela história
que viveria com minha querida Iara ).
Minha imagem evoluída tornava-se cada vez mais
distante, eu gritava por ela e estendia a mão em sua direção,
mas não conseguia emitir som algum... só meu pensamento
produzia uma voz inaudível.
No entanto, Alderan pareceu escutar-me, podia jurar ter
visto de relance o seu olhar em minha direção,
mas foi inevitável: antes mesmo que ele pudesse fazer
qualquer coisa para salvar-me, fui impotentemente tragado para
meu escafandro físico.
- Num salto de choque elétrico, acordei na cama
do quarto do hotel, com o braço ainda estendido para o
alto, pois ele não sabia que já tinha mudado de
mundo. Movi lentamente meu corpo ainda deitado, fazendo estalar
as juntas que pareciam enferrujadas, dando a impressão
de há dias não serem usadas.
- Com o corpo atordoado levantei-me preguiçosamente.
Com os olhos vistoriei o ambiente, no intuito de identificar
onde estava. Por fim, suspirei , e como um velho ranzinza resmunguei
para mim mesmo: "- Nossa, eu ainda estou neste hotel."
Tinha a sensação de estar há dias em transição
dimensional, perdera quase que totalmente a noção
de tempo e espaço.
- Uma voz sonolenta soou no quarto ao lado, que se comunicava
com o meu por meio de uma porta. Naquele momento estava aberta,
o que possibilitava a transmissão do menor sussurro:
- Aldomon, você agora deu para falar sozinho? -
Inquiriu meu amigo zombeteiro, que pelo visto acabara de acordar
com meu barulho.
- Não, só estava conversando com um fantasma
que passou por aqui. - Falei sério, depois pus as mãos
na boca para sufocar o riso galhofeiro. Ele pareceu não
entender minha resposta, pois adormeceu novamente.
- Fui até a janela do quarto e, abrindo-a fitei,
ao longe, o berço de montanhas, que ainda estavam cobertas
por uma rarefeita neblina de cerração. Fui atingido
por um vento frio que me gelou o rosto e provocou arripilantes
calafrios. Fechei a janela num reflexo de fuga e sentei-me na
cama. Após enrolar-me em um caloroso cobertor de lã,
i em minha memória reavivei Boreal do Sul e minha saída
tão intempestiva. Refleti: "-É... realmente
eu não teria como vencer as duas forças, que para
o meu próprio bem praticamente me obrigaram a acordar."
Eu sabia que todas as vezes em que me tornara Alderan, o que
possibilitava a transferência para o cérebro físico,
da memória das coisas vividas naquele instante, era uma
cota de fluxo consciencial bem delimitada. E quando eu estava
em Boreal, tal cota já se tinha esgotado nas aventuras
bélicas que me aconteceram naquela mesma viagem interdimensional.
Assim sendo, teimara comigo mesmo em tentar burlar meus limites
de memória, que já tinham até sido aumentados
na operação do cristal. Mas a outra força,
que também forçara a minha volta, era bem mais
poderosa que a anterior, pois ela era o clamor do meu corpo de
carne, o qual já estava totalmente enfraquecido por ter
passado muitas horas sem ter sido realimentado pela energia vital
que o corpo astral traz em si.
- Com minha experiência milenar na habilidade
de transição dimensional consciente, aprendi muitos
artifícios para neutralizar os mecanismos de defesa da
vida biológica do organismo físico: eventualmente
passava uma venda em cerca de meia dúzia de instintos
de sobrevivência e, com isso, ganhava um número
maior de horas para estar em outros mundos. Apesar de quase sempre
eu viver no fim dos meus limites dimensionais, tendo vez ou outra
que levar fortes eletrochoques em meu corpo físico semimorto,
tais descargas eram aplicadas pelos meus companheiros extraterrestres.
- No entanto, não fugia à minha consciência
a responsabilidade de deixar intacto um mecanismo biológico
que diria ser o mais importante, pois se manifesta por meio da
poderosa força que mantém ligado no corpo de carne
o tênue cordão energético conhecido metaforicamente
como cordão de prata. Só em condições
previamente aprontadas é que receberia permissão
do meu Eu Superior para romper tal ligação pois,
se fizesse isso irresponsavelmente, seria suicídio - ato
considerado pelas leis interdimensionais como gravíssimo
crime contra si mesmo e cujas penas são suficientemente
duras para desmotivar alguém que queira brincar com as
leis da criação.
- Respirei fundo, como que dizendo para mim mesmo: "-
Ir até o máximo dos meus limites está bom,
mas suicídio, nem pensar!" Sem perceber, caí
no sono. Eis que sou acordado por uma voz apressada que falava
com insistência:
- Você está pronto? Temos que partir já!
Levantei-me num pulo e me vesti apressado.
Não tardou e, em poucos momentos, o carro percorria
a auto-estrada com destino a Brasília. Durante quase toda
a viagem fiquei pensando no treinamento da Unidade Canéra.
De forma alguma queria perder o desenrolar dos acontecimentos,
pois sabia que, enquanto eu estava acordado ali no mundo físico,
Alderan manifestava-se em meus, ou melhor, em seus corpos astrais
mais sutis. Com isto, calculei que ele já havia iniciado
os treinamentos.
- Abri os olhos e identifiquei estar na pele de Alderan,
só que desta vez estava mais de passageiro do que de piloto,
sendo que minha mente só se fundira parcialmente, neste
caso, a vontade de Alderan é que prevalecia.. Em minhas
mãos trazia uma espada cuja lâmina sustentava logo
acima das minhas costas com firmeza. Eu empurrava para longe
a lâmina da espada de um guerreiro, que queria arrancar
minha cabeça. Com destreza desviei o golpe fulminante
e atingi meu oponente, que caiu no chão desmaiado.
Ao meu redor um ambiente escuro envolvido por uma densa
fumaça malcheirosa compunha o cenário de uma batalha.
Surgiram, de direções inesperadas, guerreiros
em armaduras pretas. Raios laser iluminavam o ambiente produzindo
barulhos peculiares. Fui atingido por alguns que vieram não
sei de onde. Entretanto, só produziram leves formigamentos
na blindagem da armadura. Lutei usando técnicas demolidoras,
a ponto de varrer do ambiente a escuridão provocada pela
fumaça escura. Por fim, quando brilhavam no firmamento
os raios do Sol, de súbito todo o ambiente desapareceu
como que num toque de mágica.
- Eu então percebi que estava numa câmara
de simulação bélica. Saí por uma
abertura que se fez visível. Ao sair do simulador, encontrei-me
com Iara e mais oitenta mulheres que compunham sua nova equipe
de combate. Ao aproximar-me de Iara, falei telepaticamente com
voz metálica:
- - Sua equipe terá que aprender não só
a ciência e arte de guerra, mas também os princípios
que as originaram.
Iara fitou-me com a face inquebrantavelmente séria,
como a de uma guerreira pronta para a batalha, e com firmeza
expressou-se:
- - Na véspera da minha vinda aqui para a Terra,
estudei os dados que me eram disponíveis, os quais continham
a filosofia dos vários tipos de guerra. Porém,
creio que só a prática me dará os elementos
necessários para realizar a tarefa tão árdua
que nos aguarda.
Num gesto de concordância, completei:
- Prática é o que mais terão em nossos
treinamentos. No entanto, em primeiro lugar, vamos à teoria.
Ela assentiu com a cabeça e então caminhamos
todos para o auditório, onde eu faria uma exposição.
Entramos no confortável anfiteatro, onde poltronas
acolchoadas estavam organizadas em degraus crescentes diante
de uma ampla tela visual, que se estendia por toda a parede à
nossa frente.
- Subi em uma pequena plataforma, disposta ao lado do
telão. Acoplado à minha poltrona, havia um painel
com uma pequena tela. Rapidamente peguei um minúsculo
aparelho, em forma de losango. Elevando-o ao centro da minha
testa, fiz surgir uma imagem no monitor do meu painel e o losango
ficou magneticamente grudado em minha cabeça.
Fitei minha platéia com grave seriedade. Ao prender
a atenção de todas, dei início à
minha palestra :
- Para que se compreenda a natureza da guerra, é
necessário antes de tudo focalizarmos as leis que regem
os Raios da Criação. Com isto pode-se ter os referenciais
das forças harmonizadoras e desarmonizadoras dos universos.
Todas vocês sabem muito bem que em cada universo existe
um ser supremo que o controla, como um deus, tendo todos os poderes
sobre as galáxias, nebulosas enfim, abrange todos os mundos
que compõem as fronteiras do seu universo, a fim de manter
a suprema ordem de evolução dos seres que vivem
na infinidade de mundos. Deus manifesta-se por meio da Hierarquia,
que é realizada pelos senhores dos mundos, os quais utilizam-se
dos Raios da Criação para manter sempre em equilíbrio
as leis que controlam a evolução de cada mundo.
O Raio de força agregadora que impulsiona a evolução
dos seres para que se fundam com a consciência do Deus
do universo é o amor. O mesmo amor que faz com que as
minúsculas partículas se fundam para formarem o
átomo, dando início a uma reação
em cadeia, e em que a matéria vai fundindo-se e formando
planetas, galáxias e universos do macrocosmo como também
do microcosmo. É ele que permite que os planetas sejam
ilusoriamente destruídos, para que se transformem em estrelas,
havendo assim uma perfeita ordem por trás do caos. Com
vigilância, permite que as forças desagregadoras
provoquem a destruição, porém na dose certa.
No entanto, as forças destrutivas do mal não possuem
noção de limites, para poderem deixar facilmente
de serem instrumentos das leis de ação e reação
negativas, que infelizmente são necessárias para
que todos os seres evoluam rumo ao Criador.
- Silenciei minha telepatia, e por alguns momentos fitei
uma por uma na arquibancada, sondando-lhes os pensamentos, para
identificar as dúvidas. Olhei para o monitor à
minha frente e fiz aparecer as imagens de algumas cenas que mostravam
a história das guerras de um determinado planeta, que
teve o triste fim de ser totalmente destruído por seus
habitantes. Assim que as imagens desapareceram, falei com convicção:
- - Nossa guerra não é esta, que destrói
planetas e desrespeita as leis da criação. Pelo
contrário: as batalhas de nossa guerra são exatamente
contra os exércitos negativos, que não conhecem
os limites do caos. Diferentemente deles, em nossas batalhas,
quando somos obrigados a extinguir o inimigo, fazemos isso sem
desrespeitar qualquer lei, pois recolhemos seus corpos mais sutis
e o levamos para locais adequados a suas estadas; posteriormente
lhes serão dados novos corpos físicos ou astrais
e com o passar do tempo evoluirão de maneira tal que deixarão
de ser negativos e destrutivo, passando a nossos amigos. Até
mesmo eu, num passado muito distante, também já
fui do lado negativo. Mas o que seria do amor se não fosse
a justiça e, sendo o poder uma força neutra na
Criação, a justiça utiliza-se do poder bélico
para ser executada sem, contudo, desrespeitar os parâmetros
de amor. Sendo assim, o guerreiro ou guerreira da Hierarquia
deverá seguir o Raio do amor, da justiça, do poder,
não lhe podendo faltar o do conhecimento. Os demais são
complementos.
- Durante toda a palestra eu expus todos os conhecimentos
de que Canéra necessitava para ligar-se belicosamente
à Hierarquia governante dos mundos interdimensionais.
- Seguiram-se os dias e os treinamentos já estavam
prestes a acabar. Quase não me dei conta de que tinha
chegado a data da partida de Iara.
- As estrelas do céu pareciam cair sobre a Terra
em vôos rasantes. Raras foram as vezes que vi tantas naves
juntas para uma só batalha como aquela que os meus olhos
me mostravam: quase toda a Unidade Prata estava presente, juntamente
com várias outras do comando Ashtar.
- Do alto se via que meio continente estava sendo varrido
das legiões de seres negativos. Ao capturarmos as entidades
sombrias, as regiões que eram controladas por elas tinham
todas as suas construções desintegradas. Em seguida
eram instalados fios elétricos de alta tensão em
cada Quadrante para dificultar possíveis invasões.
Eu estava na frente do fogo a bordo de um caça. Fui alertado
através do comunicador de que Iara e sua Unidade estavam
partindo. Imediatamente fiz a nave transitar para a sexta dimensão,
saindo assim da tenebrosa quarta ...
- Apareci nas claridades do universo mais sutil, e como
um relâmpago cortei o céu de meio globo terrestre
em busca de Boreal do Sul. Avistei os paredões da montanha
da base e mesmo de longe percebi a presença de alguém
muito querido de pé no topo de um dos cumes.
- Ao ter uma visão em close, notei que Iara fitava
o céu em minha direção, algumas centenas
de metros nos separavam um do outro. Naquele momento um pensamento
aterrorizante veio à minha mente: "- Eu posso estar
de volta ao corpo físico a qualquer instante, pois meu
tempo de permanência fora já acabou." Tomado
por uma desesperadora ansiedade, abri a porta da nave e voei
na direção de Iara. Eu quase podia ver o último
grão de areia da ampulheta do meu tempo descer em câmara
lenta.
- Mas o tempo pareceu ter parado e pude abraçar
aquele corpo de suavidade celestial. Com as mãos afaguei
seus sedosos cabelos de ônix, num movimento carinhoso seu
rosto tocou o meu e algo maravilhoso aconteceu: de cada poro
dos nossos corpos saíam fagulhas de energias que pareciam
ter inteligência própria. As que entravam em minha
pele eram prateadas e saíam de Iara; as que saíam
de mim e entravam nela eram douradas. Senti um êxtase tão
forte e intenso que este infinito prazer só poderia ser
comparado ao êxtase que tive quando experimentei a iluminação
cósmica. Naquela fusão de amor, senti como se aquele
estado fosse durar uma eternidade, mas eis que o tempo voltou
a funcionar e meu grão de areia não mais existia.
Com ele também se foi Iara, que pareceu desmaterializar-se
entre os meus braços.
- Quando dei por mim, estava acordado. Parecia que Iara
levara com ela uma pequena parte de mim. Isto não me fazia
falta, pois felizmente ela também deixara comigo parte
de si. Tais dádivas que compartilhamos são imateriais
e só nas lembranças e no coração
ficam guardadas.
- Voaram-se os meses. No mundo físico não
mais se ouvia minha voz ecoar nos auditórios. Sentia-me
triste, pois parecia ter sido abandonado por minha missão,
que sequer dava vestígios de sua existência, ocultando-se
de mim. Por mais que eu a buscasse fazia-se invisível.
- Sentia uma melancólica saudade da vida que
levava nos mundos físicos mais evoluídos. Isto
fazia doer fortemente o meu peito, que quase estava morrendo
de desencanto por não ter uma causa pela qual lutar no
mundo material. Certo dia, quando fui assolado por uma terrível
depressão por sentir-me inútil, fui socorrido por
uma voz amiga e consoladora, envolvendo-me em ondas de ânimo
hipnótico e arrebatador... Suavemente fui saindo do mundo
de agonia.
- Surgi em um ambiente iluminado por uma claridade tão
intensa que eu só enxergava luz. Senti meu corpo: podia
mover perfeitamente braços e pernas, mas não conseguia
me ver. Era como se eu tivesse sido imergido na essência
espiritual de algum ser muito evoluído, que naquele instante
purificara-me de todos os pensamentos e sensações
desagradáveis.
- O ser de luz começou a comunicar-se comigo
usando uma linguagem não-verbal. Não era telepatia,
e sim um tipo de comunicação não-humana.
Tive a impressão de que ele falava por meio das vibrações
da essência da qual os pensamentos são feitos. Com
sua estranha linguagem falou-me que ele sou eu, após ter
saído do reino da evolução, e que meus passos
estão sendo acompanhados por ele.
De súbito perdi os sentidos. Quando abri os olhos,
dei um salto de espanto: o motivo do meu susto foi ter aparecido
numa casa estranha. De pé, ao lado de um sofá,
fitei toda a sala de estar e facilmente se percebia que pertencia
a uma pequena mansão, cuja decoração era
ultra-sofisticada.
De uma porta saiu um homem que mostrava um corpo de proporções
hercúleas. Vestia um alinhado macacão inteiriço
de cor azul índigo, botas pretas de design sofisticado.
Parecia estar colocando um pequeno aparelho no pulso, em cima
do tecido da sua vestimenta. Parou sobressaltado ao notar minha
presença inesperada. De minha parte, estremeci de vergonha
por ter invadido a casa de alguém, mesmo tendo sido de
forma involuntária.
Por momentos o silêncio comandou o ambiente. O homenzarrão
franziu a testa e cerrou as sobrancelhas, fitando-me como se
quisesse ver através de mim. Eu, já de cabeça
baixa, formulava em pensamento uma desculpa plausível
para, em seguida, procurar a porta da rua. Argumentei comigo
mesmo: "- E se ele pensar que entrei em sua casa com a intenção
de roubar alguma coisa?" Afinal, ali havia muitos objetos
de valor. Ouvi a sua voz de tenor pronunciando meu nome com tom
de saudade e ao mesmo tempo de alegria. Perguntei surpreso e
chocado:
- Como sabe quem eu sou?
- Como não saberia se você foi meu filho
há muitas vidas atrás! - Falou ele, com um largo
sorriso de contentamento.
Com ar bem-humorado continuou:
- Ah, como poderia esquecer-me de suas esquisitices?
Antes de mais nada, para me esclarecer, perguntei:
-Onde estou?
- Washington, Estados Unidos da América do Norte,
ano 2510, 6 de janeiro!
Sentei no sofá para não cair de tão
zonzo que fiquei. Em pensamento disse para mim mesmo: "-Nossa,
viajei para o futuro!"
- Se estamos nos EUA, como você sabe falar meu idioma?
- Inquiri.
- Entre outros, também sei falar português.
Porém, estou falando por telepatia.
- Não acredito! Vi você mexendo os lábios.
Ele riu da minha suspeita.
- Mexi a boca por força do hábito !
- Em quinhentos anos os habitantes da Terra aprenderam
a falar por telepatia? - Perguntei muito curioso.
-Não, sem aparelhos ainda não. Mas falta
pouco para conseguirmos.
- Mas está falando agora comigo sem aparelho?
- Isto é natural quando estamos fora do corpo.
- Falou ele com naturalidade.
Dei duas gargalhadas, rindo de mim mesmo.
- Até agora eu acreditava estarmos no mundo físico
! - Falei, satirizando a situação.
Ele também riu, pois já tinha percebido
minha confusão, mas preferiu deixar que eu mesmo descobrisse.
- Meu nome é Dieijiom. Sei que seu tempo de transmissão
de memória é limitado; portanto, vamos ganhar tempo.
Concordei prontamente, pois meu período ali seria
realmente curto. Mas, desconfiado que sou, concentrei-me para
ver se aquela pessoa era realmente quem dizia ser: vi a imagem
do rosto do meu pai surgir no lugar do de Dieijiom; após
constatar suas vibrações individuais, fui sem receio.
Segui-o até os fundos da mansão, lá
encontrei três aparelhos parecidos com naves espaciais.
Dieijiom explicou-me que apenas uma era espacial, as outras eram
apenas aéreas, de uso popular.
Entramos na contraparte astral da que era espacial, decolamos
para o céu daquela noite um pouco nublada.
- Você deve ser bem remunerado, hein? Para ter aquele
casarão e estas naves...
- Até que sou, não tenho do que me queixar.
Mas esta em que estamos é do governo, e estou com ela
porque sou um piloto do sistema de defesa espacial. - Disse ele
cheio de contentamento, quase que orgulhoso.
Ele, percebendo minha surpresa, elucidou o caso:
- Tive que trabalhar muito, vida após vida, para
chegar aonde estou. Você teve importante papel para que
eu tomasse este rumo !
- Tive! Mas como? Se a gente nem se dava lá muito
bem. Apesar de vez ou outra ter havido um respeito mútuo,
não havia quase nenhuma afinidade entre nós. -
Falei intrigado.
Ele sorriu com tranqüilidade e meiguice, depois explicou-se:
- É, realmente, durante o tempo que vivi como seu
pai no mundo físico naquela época, era como pedra
bruta que ainda precisava ser lapidada: não tinha sensibilidade
para compreender suas estranhezas. Porém, com o passar
dos anos, mesmo sem entendê-lo, fui começando a
mudar. Dentro de mim foi sendo formada uma dualidade, composta
por quem eu queria deixar de ser e por aquele que eu vislumbrava
tornar-me. Por tantas vezes eu tive tanta raiva de você,
pois minha parte sombria sabia que sua influência acabaria
matando-a para dar lugar a um Eu mais luminoso e evoluído.
Como por osmose fui captando os princípios e idéias
que foram paulatinamente fazendo uma revolução
em meus arcaicos parâmetros de viver só por existir.
Quando veio a morte, já tinha aprendido com você
a lidar bem com a realidade extrafísica. No mundo astral
fui submetido a várias cirurgias que ampliaram meu potencial
intelectual. Por seu intermédio, comecei a trabalhar com
os extraterrestres e em breve tempo fui engajando-me no trabalho
espacial, e hoje aqui estou. Agora falemos sobre você:
quer dizer que anda pensando que está jogado ao acaso?
Saiba que sua missão será realizada.
Ao escutar aquelas palavras, inquiri fervorosamente:
- Qual a minha missão? Pois ainda não a
descobri!
- Vou lhe contar agora. - Falou ele solenemente.
- Você já começou a realizá-la
mas, por ela vir de uma forma muito natural - como é para
o pássaro o ato de voar - você não a percebeu.
Por isto eu é quem vou lhe perguntar: O que é que
você sabe fazer de melhor lá no mundo físico?
Parei por um breve momento minha atenção
naquela pergunta e falei logo em seguida:
- A primeira coisa em que acredito é que sou bom
na habilidade de sair do corpo conscientemente. A segunda é
a facilidade de pegar conhecimentos que aprendi em outras vidas,
bem como minha relativa facilidade em expressar-me.
Ele sorriu seguramente e arremessou-me um simples enigma:
- São estas as ferramentas da sua missão!
Escutei um estalo, e num flash fui transportado, surgindo
em seguida no Cruzador Triton. Enquanto andava por um dos corredores,
eu lembrei-me de qual era minha missão. Pensei comigo
mesmo: "- Como pude não deduzir antes que minha missão
é ser mensageiro de outros mundos! É... realmente
às vezes complicamos tanto as coisas mais simples."
À minha frente, avistei Ashtar próximo a
uma janela, fitando ao longe o planeta Terra. Com minha aproximação,
ele virou-se em minha direção e disse:
- Finalmente você descobriu!
Sorri jubiloso.
- São tantas coisas a se fazer! - Falei voluntario.
Ashtar olhou novamente para o Planeta e completou:
- E tão pouco tempo para concluí-las...
- FIM...
-